ALICE HAMILTON – UMA ETERNA INSPIRAÇÃO EM NOSSO TRABALHO
Berenice Goelzer (*)
De vez em quando aparece alguém que ilumina o caminho para uma profissão. Uma dessas luzes brilhantes no campo da Medicina e da Higiene Ocupacional foi Alice Hamilton.
Alice Hamilton nasceu em 1869, em Nova York (mas sua família vivia em Fort Wayne, Indiana, onde ela passou a infância). Formou-se em medicina na University of Michigan Medical School, em Ann Arbor, em 1893 (Fig. 1 - Alice aos 24 anos, ao se graduar em medicina na U-M). Depois de fazer residência em alguns hospitais nos EUA, Alice estudou bacteriologia e patologia em universidades na Alemanha (Munique e Leipzig). Ao retornar a seu país natal, continuou os estudos de pós-graduação na Universidade de Medicina Johns Hopkins. Em 1897, mudou-se para Chicago, onde lecionou patologia na Woman's Medical School da Universidade Northwestern.
A mudança para Chicago foi decisiva na trajetória de Alice, particularmente em relação ao campo de trabalho ao qual se dedicou durante o restante de sua longa existência. Isso porque foi nessa cidade que ela se tornou residente da Hull House1, estabelecimento de trabalho social fundado por Jane Addams, que visava a melhorar a saúde e qualidade de vida de famílias pobres, formadas, em grande parte, por trabalhadores imigrantes europeus. Alice sentiu grande empatia com a população pobre e sofrida da qual tratava e foi se interessando cada vez mais pelos problemas dos que eram trabalhadores, não apenas pelas questões sociais que vivenciavam, mas também pelas de saúde, incluindo acidentes e doenças, que foi, aos poucos, associando a suas péssimas condições de trabalho.
Desde a Revolução Industrial houve interesse na Europa sobre as doenças ocupacionais, porém, nos EUA, no início do século XX, esse campo ainda era muito limitado. Sensibilizada pelas condições de trabalho dos imigrantes que atendia na Hull House e por aquelas dos locais de trabalho na época, Alice decidiu que a situação teria de mudar. Assim, em 1908, publicou seu primeiro artigo sobre o assunto.
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1 Hull House era uma instituição, sediada em uma casa antiga em área pobre de Chicago que, como outras deste tipo, proporcionava serviços sociais para a comunidade adjacente, bastante desfavorecida (no caso, trabalhadores imigrantes), com o objetivo de melhorar sua qualidade de vida. Esses projetos sociais incluíam atividades educativas e culturais, áreas de recreio para crianças, alguns cuidados médicos, conselhos de puericultura, entre outros.
(*) Higienista Ocupacional Certificada, HOC 0009
É interessante notar a grande influência da mãe de Alice em sua vida de trabalho junto aos mais necessitados, pois demonstrava aos filhos forte consciência social e se indignava com injustiças, como, por exemplo, a brutalidade da polícia, a discriminação racial e o trabalho infantil. Ela os fazia sentir que o que estava errado na sociedade deveria ser preocupação de todos. Alice cita, em sua autobiografia, algo que sua mãe dizia: “Existem dois tipos de pessoas: os que dizem ao
ver algo errado ou injusto: ‘Alguém deveria fazer algo sobre isso, mas por que deveria ser eu?’ e os que dizem ‘Alguém deveria fazer algo sobre isso, então por que não eu ?’ ”
No decorrer de sua carreira, Alice Hamilton foi indicada para a Illinois Commission on Occupational Diseases (Comissão de Illinois para Doenças Ocupacionais), também conhecida como Deneen Commission, a primeira desse gênero nos EUA, e, assim, em 1910, teve a oportunidade de liderar o primeiro levantamento sobre doenças ocupacionais no país. Inicialmente investigaram locais de trabalho utilizando chumbo, arsênico, cianetos e turpentina, bem como a ocorrência de monóxido de carbono.
A partir dessa época, Alice estudou a ocorrência de intoxicações em muitos locais de trabalho: nas indústrias que utilizavam chumbo, nas fábricas de cerâmicas e produtos esmaltados, na produção de borracha, em atividades de pintura, na fabricação de munições e explosivos e na indústria da viscose raiom, entre muitas outras.
Quando tinha 40 anos, Alice já era reconhecida como a principal autoridade em saturnismo do país e fazia parte de um pequeno grupo de especialistas em doenças ocupacionais. Durante toda a vida ela participou em muitos comitês estaduais e federais, e foi responsável por numerosos marcos importantes no desenvolvimento da toxicologia industrial, tendo conduzido estudos importantes sobre muitos agentes, por exemplo, chumbo, mercúrio, sílica, anilinas, dissulfeto de carbono e gás sulfídrico. Seus estudos e relatórios para o governo federal chamaram a atenção para a altíssima mortalidade entre trabalhadores em ocupações perigosas, o que levou a várias mudanças em legislações em nível estadual e federal.
Muitos de seus trabalhos foram realizados com pouco ou nenhum benefício econômico – seu compromisso era com a proteção da saúde dos trabalhadores.
É importante ressaltar que Alice não se limitou a identificar e a diagnosticar doenças ocupacionais e a buscar suas causas, assim estabelecendo o nexo causal. Foi além disso, indicando que a única solução para preveni-las seria a prevenção primária, como demonstrado nas citações seguintes2, relativas respectivamente à silicose e ao saturnismo:
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2 Do livro “Exploring the Dangerous Trades - The Autobiography of Alice Hamilton, M.D.”, (Investigando os Ofícios Perigosos – A Autobiobiografia de Alice Hamilton, Doutora em Medicina) de Alice Hamilton (primeira edição em 1943); disponível em diferentes edições inclusive em Kindle.
“Obviamente, a maneira de combater a silicose é prevenir a formação e disseminação da poeira ...”
“Não pode haver um controle inteligente do perigo do chumbo na indústria a não ser que se baseie no principio de manter o ar limpo de poeiras e fumos.”
Alice também sabia dialogar com empresários. Por exemplo, Edward Cornish, vice-presidente de uma grande empresa, inicialmente se mostrou inflexível a mudanças. Contudo, ao ver as provas incontestáveis que ela apresentou, de vinte e dois casos de saturnismo severo, convenceu-se e cumpriu a promessa de modificar os locais de trabalho sob sua responsabilidade com medidas para prevenir poeiras e fumos de chumbo no ar, muitas das quais nunca haviam sido aplicadas. Essa tarefa representou um desafio para os engenheiros que não tinham modelos a seguir. As condições de trabalho eram tão perigosas e o nexo causal tão nítido que o reconhecimento do risco era suficiente para recomendar sua prevenção – o que até hoje se justifica em situações de risco iminente.
Em 1919, Alice foi contratada como professora-assistente no recém-criado Departamento de Medicina Industrial, na faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, tendo sido a primeira mulher a fazer parte de seu corpo docente.
O trabalho de Alice Hamilton foi também reconhecido internacionalmente. Ela visitou vários países europeus e participou em reuniões internacionais, sempre defendendo os direitos, tanto dos trabalhadores, como das mulheres e dos oprimidos.
Em 1920, foi fundada a Liga das Nações, constituída de vários órgãos, que também coordenava agências importantes, como, por exemplo, a “Health Organization” (Organização para a Saúde - precursora da OMS–Organização Mundial da Saúde) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Um dos órgãos da “Health Organization” era o “Health Committee” (Comitê para a Saúde), estabelecido em 1922, com o qual Alice trabalhou durante seis anos, a partir de 1924, sendo a única mulher no grupo.
Alice Hamilton when working at Harvard
Alice era uma visionária, uma mulher “à frente de seu tempo”. Suas preocupações com a saúde dos trabalhadores se manifestavam em todas as oportunidades que tinha. Por exemplo, na Conferência de 1925 sobre Chumbo Tetra-Etílico, ocorrida em Washington D.C., foi a crítica mais veemente da adição desse produto químico à gasolina.
Durante toda a sua vida, Alice Hamilton se interessou por questões sociais, o que se constata a partir de sua decisão para viver na Hull House até seu trabalho e incansável luta por condições de trabalho salubres. Alice também se envolveu com questões políticas: por exemplo, com mais de 80 anos desempenhou papel ativo em campanhas contra o Macarthismo3. Também era pacifista; em 1963, aos 94 anos, assinou uma carta aberta para o Presidente Kennedy, pedindo a retirada das tropas norte-americanas do Vietnã.
Alice Hamilton festejou seu aniversário de 100 anos em 1969, quando recebeu telegrama do Presidente Nixon elogiando suas conquistas na saúde ocupacional. Note-se que o Presidente Nixon era republicano e Alice, uma democrata muito liberal. Isso prova que a verdade científica, a empatia pelos que sofrem, a valorização de justiça social e a honestidade profissional não têm partidos políticos. Independentemente de questões políticas, todos deveriam se unir para assegurar saúde e justiça para os trabalhadores, que constituem a base do progresso das nações.
Alice Hamilton faleceu no dia 22 de setembro de 1970, em Hadlyme, Connecticut. Três meses depois, o Congresso dos EUA aprovou o “Occupational Safety and Health Act”.
Homenagens
Em 1944, Alice Hamilton foi incluída na lista “Men in Science” e, em 1947, recebeu o prestigioso “Lasker Award”, atribuído a pessoas que fizeram importantes contribuições para as ciências médicas ou que realizaram trabalhos públicos na área.
Em 1973, seu nome foi introduzido postumamente no “U.S. National Women's Hall of Fame”.
Em 1987, o “National Institute for Occupational Safety and Health” (NIOSH) prestou-lhe homenagem nomeando suas instalações de pesquisa como "Alice Hamilton Laboratory for Occupational Safety and Health" e estabeleceu uma premiação anual – o "Alice Hamilton Award", para reconhecer conquistas de excelência em pesquisas científicas nessa área.
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3Período de intensa patrulha anticomunista, perseguição política e desrespeito aos direitos civis nos Estados Unidos que durou do fim da década de 1940 até meados da década de 1950.
Em 1995, suas contribuições na área de saúde pública foram reconhecidas pelo Correio Americano com um selo (Fig. 3) da série “Great Americans”.
Em 2002, foi designada como “National Historic Chemical Landmark” por seu importante papel no avanço da Medicina do Trabalho.
Fig. 3 – selo filatélico, 1995
Em certo ponto de sua autobiografia, Alice escreveu: “Cada artigo que escrevi naqueles dias, cada palestra que fiz, está repleta de súplicas pelo reconhecimento da intoxicação por chumbo como problema médico real e sério.”
Com inspiração nesse pedido de Alice, faço um apelo a todos os atores relacionados ao ambiente de trabalho – empresários, administradores, profissionais de saúde ocupacional, engenheiros de produção, trabalhadores – para que reflitam sobre a injustiça de deixar uma pessoa ficar doente ou morrer devido a uma exposição ocupacional que poderia ter sido evitada por meios técnicos conhecidos, e particularmente aos colegas higienistas ocupacionais, que atuem quanto à prevenção. Como Alice reconheceu, há mais de 100 anos, um diagnóstico de doença sem tratamento não tem valor; da mesma forma, uma avaliação de exposição sem aconselhamento quanto a medidas eficientes e realistas para evitá-la não previne doenças nem mortes. A história nos vem ensinando isso!
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(*) By PDH at Smithsonian Institution and en. wikipedia (Public domain), from Wikimedia Commons