Considerações sobre Prevenção da Silicose

Berenice Goelzer


É impressionante e triste ver como a distância entre conhecimentos e aplicação é imensa. O objetivo deste comentário é fazer com que os colegas pensem em soluções para melhorar esta situação desastrosa.


Um exemplo é o caso da silicose, conhecida desde mais de 2.000 anos por médicos como Hipócrates e Plinio, o Velho, mas que continua adoecendo e matando grande número de trabalhadores no mundo inteiro, inclusive nos países mais desenvolvidos.


A solução para erradicar completamente a silicose é a prevenção primária, ou seja, evitar a exposição; no entanto, mesmo quando existem programas preventivos, muitas vezes a ênfase continua a ser nas radiografias (para constatar uma doença irreversível e progressiva) e proteção respiratória que sabemos é de eficiência muito limitada, principalmente quando não é de boa qualidade e bem utilizada.


Há mais de 100 anos, Alice Hamilton, médica e higienista do trabalho, pioneira no desenvolvimento deste campo nos Estados Unidos, escreveu, em relação à silicose: “... obviamente, a maneira de combater a silicose é evitar a formação e a disseminação da poeira”. Todos nós sabemos que, enquanto os agentes prejudiciais para a saúde nos ambientes de trabalho não forem evitados ou controlados, os esforços em termos de proteção à saúde dos trabalhadores serão muito limitados.


Porém, situações perigosas continuam a existir, mesmo em centros muito avançados. Vejamos o exemplo dos USA, onde está sendo considerada uma grande notícia que a OSHA finalmente anunciou a muito esperada legislação para sílica livre e cristalina: “em 23 de agosto OSHA anunciou a proposta regulamentação para sílica livre e cristalina que tem por objetivo conter o câncer do pulmão, a silicose, doenças pulmonares obstrutivas e problemas de rins nos trabalhadores americanos (Nota: deveriam ter mencionado enfisema).” Ver detalhes em: https://www.osha.gov/silica/


E notem que é uma proposta, ainda não é um regulamento final, sendo que “OSHA encoraja o público a participar no desenvolvimento deste importante regulamento enviando comentários e participando em audiências públicas. Esta participação ajudará OSHA a desenvolver um regulamento que garantirá condições de trabalho saudáveis para os trabalhadores que sejam factíveis para os empregadores.”


O Secretario-Assistente do Trabalho para SST, Dr. David Michaels, explicou (mais de 100 anos depois de Alice Hamilton!):

"Exposição à sílica pode ser fatal, e limitar esta exposição é essencial. Cada ano, muitos trabalhadores expostos não somente perdem sua capacidade para trabalhar, mas também para respirar. Espera-se que esta proposta previna milhares de mortes por silicose – uma doença incurável e progressiva – bem como câncer do pulmão, outras doenças respiratórias e dos rins. Os trabalhadores afetados são pais, mães, irmãs e irmãos perdidos definitivamente para doenças perfeitamente preveníveis.”


A estimativa da OSHA é de que este regulamento proposto irá salvar cerca de 700 vidas e prevenir 1.600 novos casos de silicose por ano, uma vez que completamente implementado.


No texto da OSHA é mencionado que este regulamento proposto é resultado de revisão extensa de evidência científica quanto aos riscos para a saúde resultantes da exposição às poeiras respiráveis de sílica livre e cristalina, análise de diversas indústrias onde trabalhadores expostos são, e esforços de diferentes atores envolvidos.


Os limites de exposição ocupacional atualmente aplicados pela OSHA datam de 40 anos e se aplicam para indústria, construção e estaleiros, sendo desatualizados, inconsistentes entre diferentes setores, e não protegem adequadamente a saúde dos trabalhadores. Este novo regulamento trará proteção ao século 21.


Tudo isso vem sido dito desde épocas AC e, na nossa era, de Agricola a Alice Hamilton, inclusive por muitos de nós (eu, como vários colegas, falo isto há mais de 40 anos!).


Como diz o ditado “antes tarde do que nunca", mas que demorou, demorou. E no Brasil, o que nós, profissionais de saúde ocupacional, temos feito, a não ser falar e fazer reuniões sobre o assunto? O que podemos fazer individualmente e em conjunto para melhorar nossa situação quanto à silicose que deve ser ainda pior que nos USA? Temos conhecimentos, e conhecimentos trazem consigo responsabilidades, o que nos dá “o que pensar”.